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‘Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo?’

01/02/2012

Quem gosta de Fernando Pessoa percebeu, ao bater os olhos no título do post, que o trecho é de um dos poemas mais famosos do autor. ‘Poema em linha reta’, escrito com o heterônimo de Álvaro de Campos, é uma crítica social, uma revolta à falta de autocrítica dos outros, e à hipocrisia sem limites da sociedade de sua época. Um tanto quanto atemporal, não? (s-e-n-s-a-c-i-o-n-a-l)

E foi navegando por vídeos alheios do Youtube que encontrei essa belíssima adaptação do poema, interpretada pelo ator Osmar Prado, na novela (também é cultura) ‘O Clone’. Seu personagem faz jus do poema. Vale a pena assistir! Quem não conhece o feito de Fernando Pessoa, abaixo do vídeo, segue o texto na íntegra.

Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)

4 comentários leave one →
  1. Luis Ricardo permalink
    01/02/2012 11:23

    Muito Bom!! Parabéns! O poema é demais…
    ps.: tem uma variação dele nessa musica, bem legal!
    http://letras.terra.com.br/velhas-virgens/96582/

  2. 02/02/2012 00:10

    Ótimo post!!!
    Gosto muito do Pessoa e de todas as pessoas que ele traz com ele…

    Bjos

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