Desabafo · Memórias · Pessoal

Quando foi que ficamos com medo de parques de diversão?

Ainda me lembro como se fosse ontem. A galera do colégio reunida para um passeio ao maior parque de diversão da cidade. Acordamos cedo para a excursão e não parávamos um minuto se quer de cantar ao longo do trajeto (coitado do motorista ao ter que ouvir incontáveis vezes “fulano roubou pão na casa do João”).

Toda essa empolgação tinha uma explicação, já que no auge dos nossos 15 anos, o céu era o limite e aventura era o que estávamos buscando. Minhas lembranças e as fotos que as comprovam retratam adolescentes felizes, destemidos e impulsivos em todos os cliques dos brinquedos que íamos. Não importava se ficávamos horas na fila daquele mais disputado, o que valia, com certeza, era a adrenalina. Às vezes, ela era tão boa que nos sujeitávamos a enfrentar a mesma fila mais de uma vez, somente para sentir aquele friozinho na barriga de novo enquanto o nosso corpo era lançado de uma altura absurda a uma velocidade mais absurda ainda.

Era essa a recordação que tinha quando aceitei o convite do meu namorado para conhecer o parque de diversão de Santiago do Chile (para quem não sabe, estou morando na capital chilena há exatos 11 meses), com a inocente expectativa de que a aventura seria tão boa quanto àquela que vivi na época de escola.

O desafio já começou no momento de acordar super cedo em pleno sábado. Acredite, com 31 anos, quando chega o final de semana, o que você mais quer é poder ficar na sua cama umas horinhas a mais para compensar a semana agitada. Depois, o terror seguiu ao chegar ao parque e se deparar com gritos vindos de todos os cantos do local, o que parece que acendeu um medo que jamais havia sentido em experiências como essa.

A sua hora vai chegar (1)
Montanha-russa do Parque Fantasilandia, em Santiago do Chile

Achei que fosse bobeira e topei enfrentar, logo de cara, a montanha-russa. Hoje, me pergunto, onde estava com a cabeça. A fila era enorme e a paciência nem tanto. Ao, finalmente, chegar a nossa vez, ao apertar aquele cinto/banco ao meu corpo, me bateu um desespero. Pensava: “Meu Deus, e se isso abrir?”. “E se acontecer alguma falha mecânica e ficarmos presos bem quando o carrinho dá aquela volta em 360 graus e você fica suspensa com a cabeça para baixo?”.

Claro que, graças a Deus, tudo ocorreu bem, mas sai de lá meio tonta de tanto que minha cabeça mexeu com os movimentos rápidos e bruscos. De lá, partimos para aquele que, na minha opinião, foi o pior brinquedo que já estive na vida. Uma espécie de carrossel, mas que eleva as cadeiras à altura escandalosa, com cadeiras suspensas e presas a correntes e, lá em cima, gira sem parar. Meu pânico já começou quando sentei e me dei conta da estrutura (não sou engenheira e especialista em segurança, mas quem não concorda que chega a ser uma loucura o negócio todo?). Depois, quando o “trem” começou a girar rapidamente e meus pés ao ar livre pareciam dois pássaros assustados, lá de cima gritava “quero sair”, mas, obvio, que o maquinista não me ouviu. Resumindo: Odiei!

De lá, fomos a um brinquedo que você entrava em uma espécie de armadura, ele te deitava em 90 graus e, após todos os processos de “cintos apertados e tudo liberado”, começava a te girar incontáveis vezes. Resultado: sai de lá mais tonta que barata tonta.

Após essas experiências, eu e meu namorado resolvemos almoçar, o que, para a minha desatualização, não havia comida. Parque de diversão só tem hambúrgueres, batatas fritas e refrigerantes. Ok, fazer o que, já que estamos no inferno, vamos jogar a dieta para longe.

Almoçamos, esperamos um tempinho, e resolvemos ir a alguns brinquedos “mais tranquilos”, como o toboágua, a torre que suspende as cadeiras de uma altura absurda na menor velocidade que você possa imaginar, uma espécie de gira gira e, mais uma vez, outras montanhas-russas. Essas duas me deixaram ainda mais tonta e com vontade de fugir para um lugar mais seguro. Com isso, sugeri ao meu namorado: “Acho que já deu né? Por que não vamos no barco viking, lembro que esse eu amava”. Ele topou e fomos em direção daquele que desembrulhou todo meu estômago, mesmo já tendo passado horas depois do almoço.

A cada nova subida de uma ponta do barco, parecia que eu ia botar para fora o que almocei e comi nos últimos 3 dias. Quando o barco perdia velocidade como sinal de que ia parar, eu olhava para o meu namorado com cara de “pelo amor de deus, me tira daqui”. Enquanto, atrás de nós, dezenas de crianças e adolescentes gritavam “de novo, de novo, de novo”, o que fez com que o maquinista apertasse o botão de subir e descer mais uma vez, para a minha decepção.

Saímos de lá tontos, cansados e com dor em todo o corpo. Cheguei em casa e cai, literalmente, na cama. Não conseguia sentir cheiro de comida pelo enjoo e, mesmo já deitada em um lugar seguro, fechava os olhos e tinha a sensação de que estava girando e girando, cada vez mais rápido.

Mais de 15 anos depois da minha visita a um parque quando adolescente destemida, o que não esperava é que aquela coragem toda que minha memória me trazia da experiência passada havia desaparecido. Afinal, quando foi que me tornei uma pessoa que tem medo de montanha-russa e dos demais brinquedos que envolvem altura, velocidade e muito, mas muito grito? Sou só eu ou você, depois de adulto, também adquiriu esse medo mais consciente do perigo?

 

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